Com uma vasta riqueza de biodiversidade, o Brasil continua surpreendendo botânicos com novos registros de plantas. Espécies como o Philodendron quartziticola e o Anthurium petraeum foram as mais novas descobertas da Mata Atlântica. Pertencentes à família Araceae, elas integram o mesmo grupo da costela-de-adão, guaimbê, jiboias e antúrios, espécies ornamentais muito populares em casas. Descubra a seguir sobre essas novas preciosidades da flora brasileira.
Conheça a especialista
Andressa Oliveira é arquiteta e urbanista especialista no cultivo de plantas em casa e com experiência em projetos arquitetônicos e de interiores.
Novas plantas descobertas no Brasil revelam riqueza da Mata Atlântica
O Brasil é um dos países com maior diversidade de plantas do mundo e, mesmo em áreas já estudadas, novas espécies continuam sendo registradas. A Mata Atlântica, em especial, se destaca como um importante centro de biodiversidade, abrigando espécies únicas e habitats muito específicos.
Para o biólogo Ricardo Ribeiro, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e primeiro autor do estudo sobre o Anthurium petraeum, “o país ainda apresenta muitas lacunas de informações botânicas. É previsto que nos próximos anos cerca de 10 mil espécies de plantas sejam descritas, muitas delas já ameaçadas de extinção.”
Alexandre Magno, especialista em conservação de Araceae e pesquisador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), acrescenta que o acesso às áreas onde essas plantas ocorrem também influencia o conhecimento da flora. “Muitas espécies vivem em regiões de difícil acesso ou dentro de propriedades privadas, o que nem sempre permite a realização de pesquisas de campo. Em vários casos, novas espécies permanecem desconhecidas não porque sejam extremamente raras, mas porque ainda não conseguimos estudar adequadamente essas áreas”, explica.
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Para Marcos de Freitas Mortara, mestre em Botânica e também pesquisador do JBRJ, a diversidade de habitats e a complexidade de alguns grupos vegetais fazem com que parte da flora permaneça pouco documentada. “Expedições de campo, manutenção de herbários, revisões taxonômicas e até registros de ciência cidadã têm ajudado a localizar novas populações e direcionar estudos que podem levar à descrição de espécies novas”, completa.
Para confirmarem se uma planta é realmente nova para a ciência, Alexandre explica que, no campo, raramente se tem certeza imediata. “Primeiro surge uma desconfiança, baseada no conhecimento da flora local. Depois coletamos o material, especialmente flores ou frutos, fundamentais para identificação. Esse material é cuidadosamente comparado com descrições científicas e espécimes existentes. Se o conjunto de características não corresponde a nenhuma espécie conhecida, temos evidências de que se trata de uma espécie nova”, detalha.
Filodendro raro descoberto no Espírito Santo chama atenção de cientistas
Entre as novas espécies registradas no país, o Philodendron quartziticola se destaca pelo habitat e características únicas. A planta foi encontrada nos chamados “Morros de Sal”, ambientes formados por solos quartzíticos raros e ecologicamente frágeis na região serrana do Espírito Santo, e rapidamente chamou atenção.
Foi durante uma expedição que Alexandre Magno e outros pesquisadores encontraram a espécie no local. “O primeiro detalhe que despertou nosso interesse foi a cor avermelhada das folhas, que não é comum no grupo. Aliada ao formato alongado e estreito das folhas, percebemos que estávamos diante de algo diferente”, conta Alexandre, que iniciou os estudos para confirmar que se tratava de uma espécie inédita.
O P. quartziticola é considerado parente próximo do Philodendron spiritus-sancti, espécie nativa do Espírito Santo conhecida internacionalmente por sua raridade. Apesar das semelhanças, o filodendro recém-descoberto cresce no solo como trepadeira, enquanto o P. spiritus-sancti se desenvolve na parte alta da floresta. Diferenças na estrutura reprodutiva feminina confirmam que se trata de uma espécie distinta.
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Antúrio-das-pedras: nova espécie encontrada sobre rochas
Outra descoberta recente na Mata Atlântica foi o Anthurium petraeum, nomeado como antúrio-das-pedras. A planta foi registrada nos municípios de Linhares e Marilândia, no Espírito Santo, crescendo de forma exclusiva sobre rochas, um habitat que exige adaptabilidade e resistência.
O biólogo Ricardo Ribeiro, que participou da descoberta explica: “O antúrio-das-pedras chamou atenção pela robustez e beleza das folhas, grandes e firmes, com formato de coração e mais de 20 nervuras laterais visíveis. A inflorescência, ou espádice, é longa, com coloração vermelho vivo antes da floração, tornando-se marrom durante a abertura das flores. A espata apresenta tons verde-amarelados e vináceos.”
Ricardo detalha ainda a diferença para espécies próximas: “Ele se distingue do Anthurium sagrilloanum e do A. xanthophylloides principalmente pela cor da inflorescência e pelas características das folhas. Além disso, A. petraeum é uma planta menor.”
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O potencial ornamental das novas espécies brasileiras
Além do valor científico, o Philodendron quartziticola e o Anthurium petraeum despertam interesse pelo potencial ornamental. Suas folhas largas, formas elegantes e cores marcantes chamam atenção de paisagistas e colecionadores.
Para Marcos de Freitas Mortara, “algumas dessas plantas pertencem a grupos muito utilizados na jardinagem. Porém, antes de qualquer cultivo ou comercialização, é essencial garantir que isso ocorra de forma legal e responsável, evitando a coleta predatória”. Qualquer retirada de exemplares do ambiente natural sem autorização dos órgãos competentes é crime ambiental.
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Segundo Mortara, “para que essas plantas possam, no futuro, ser disponibilizadas no mercado ornamental, é necessário estabelecer parcerias com produtores que passem pelo processo de regularização junto aos órgãos ambientais. Isso permite a produção legal, seja por propagação em viveiro ou cultivo in vitro, garantindo que a comercialização não dependa da coleta na natureza”.
O caso do Philodendron spiritus-sancti, com o qual Marcos também trabalhou, mostra que é possível desenvolver cultivo autorizado e seguro para novas espécies com interesse ornamental. Dessa forma, essas plantas podem ser apreciadas em jardins e casas, sem ameaçar suas populações naturais.
Descobertas ajudam a proteger e valorizar a flora brasileira
Muitas espécies recém-descobertas, como essas, já apresentam risco de extinção, mesmo antes de serem descritas oficialmente pela ciência. Como explica o pesquisador Ricardo Ribeiro: “O fato de serem novas para a ciência não significa que tenham surgido recentemente. Muitas vezes, essas plantas já existem em populações pequenas e restritas, em ambientes específicos e vulneráveis, e qualquer alteração pode colocar toda a espécie em risco.”
Segundo Marcos Freitas Mortara, muitas dessas plantas ocorrem em habitats raros e naturalmente fragmentados, como afloramentos rochosos ou morros de sal, que sofrem pressões humanas, incluindo mineração, expansão urbana e agrícola, incêndios e plantio de eucalipto.
Áreas protegidas, como reservas e parques naturais, desempenham papel fundamental nesse contexto. Elas oferecem infraestrutura, segurança e condições para pesquisas de campo contínuas, permitindo que botânicos estudem espécies raras sem comprometer seus habitats. Como destaca Ribeiro, “áreas protegidas aumentam muito a chance de novas descobertas e fortalecem a conservação da biodiversidade”. Mortara complementa: “Descobrir, estudar e proteger precisam andar juntos.”
Além de ampliar o conhecimento científico, essas descobertas inspiram formas práticas de valorizar a flora brasileira. Uma delas é o cultivo responsável de plantas nativas, que, além de belas, contribuem para a biodiversidade e se adaptam melhor ao clima local. Cultivar espécies brasileiras é uma maneira simples e eficaz de celebrar e preservar a riqueza natural do país, dentro e fora de casa.






















O Brasil tem tanta coisa a oferecer e também a ser descoberta. Ecologia e estudos ambientais deviam ser levados mais a sério pela população e políticos.
Parabéns aos cientistas pelas descobertas! A taxonomia segue sendo essencial para o avanço do conhecimento da biodiversidade brasileira.
Sou biólogo, especialista em tratamento de águas e efluentes industriais e domésticos. Eu tento proteger a Natureza da maneira que posso e me emociono ao ver o trabalho dos colegas pesquisadores brasileiros. Meus sinceros parabéns!!!
Falar em proteger a natureza , foi muito bom ver o biólogo Henrique e o Richard ganharem o prêmio IBEST 🥰
Amei as descobertas
Nosso país eh muito rico , eh uma pena que qualquer um chega aqui e leva p patentear fora !